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Memória e Resistência: Busto em Olivença celebra o legado de Caboclo Marcelino



O monumento ao Caboclo Marcelino pode ser visitado no distrito de Olivença, em Ilhéus, permanecendo como ponto de referência para pesquisadores, turistas e, sobretudo, para o movimento indígena brasileiro.


Por Redação Local


ILHÉUS – Nas areias e matas de Olivença, no sul da Bahia, o nome de Marcelino José Alves, o Caboclo Marcelino, ressoa não apenas como uma lembrança do passado, mas como um estandarte vivo de luta. Recentemente, a instalação de um busto em sua homenagem tornou-se o epicentro de uma reparação histórica necessária para o povo Tupinambá, transformando o "bandido" perseguido pela imprensa do século XX no herói e mártir da resistência indígena contemporânea.

O Líder que Desafiou os Coronéis

Nascido em 1896, Marcelino emergiu como a principal liderança indígena nas décadas de 1920 e 1930, um período marcado pela expansão agressiva das lavouras de cacau. Enquanto os "coronéis" buscavam expandir seus domínios através da grilagem de terras, Marcelino organizou a resistência dos Tupinambá de Olivença para defender o território ancestral.

Sua luta não era apenas contra a ocupação, mas contra a descaracterização de seu povo. Marcelino combateu a construção de pontes e estradas que facilitavam a invasão de terras sagradas, especialmente nas proximidades do rio Cururupe, palco de históricos confrontos.

Perseguição e Desaparecimento

A resistência de Marcelino atraiu a fúria da elite local e do governo federal. Durante o Estado Novo, ele foi alvo de uma campanha de difamação sistemática. A imprensa da época o rotulava como "bandoleiro" e "ameaça à ordem", justificando uma repressão violenta contra sua comunidade.

Em um ato de sacrifício extremo, Marcelino decidiu entregar-se às autoridades para poupar seu povo de massacres ainda maiores. Após sua prisão, o rastro do líder indígena se perdeu. Seu paradeiro final permanece um dos grandes mistérios e feridas abertas na história da resistência indígena no Brasil, tornando-o um símbolo dos que "desapareceram" na luta pela terra.

Da Criminalização à Absolvição

A imagem de Marcelino começou a ser formalmente limpa em 2018. Em um júri simulado promovido pela Defensoria Pública do Estado da Bahia, o líder Tupinambá foi "absolvido" simbolicamente das acusações de banditismo. O julgamento reconheceu que suas ações não eram crimes, mas sim o exercício do direito legítimo de defesa de um território e de uma cultura sob ataque.

Um Monumento à Identidade

O busto erguido em sua homenagem em Olivença é mais do que uma obra de arte em bronze ou pedra; é um marco geográfico da memória. Para os Tupinambá de Olivença, a presença física da imagem de Marcelino no espaço público reafirma que a história da região não pertence apenas aos exportadores de cacau, mas àqueles que nela resistem há séculos.

"Marcelino não morreu; ele virou semente", afirmam as lideranças locais durante as celebrações em sua memória. O busto agora encara o horizonte de Olivença, servindo de lembrete constante de que a luta pela terra e pela dignidade indígena é uma jornada que atravessa gerações.

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