O Inferno e o Paraíso na Praia do Cristo: Teatro Popular de Ilhéus celebra 500 anos com superprodução
O que se viu na baía do Pontal foi um "magnus spectaculum".
Por: Redação Cultural
A noite de 28 de junho entrou para a história de Ilhéus não apenas como o marco do quingentésimo aniversário do município, mas como o palco de um dos maiores acontecimentos culturais da região. A Praia do Cristo foi o cenário vivo para a encenação de "O Auto da Barca do Inferno", o clássico de Gil Vicente, adaptado e dirigido por Avelino Vital Pardelha sob uma ótica dantesca e provocadora.
Uma Estrutura de Gigante
O que se viu na baía do Pontal foi um "magnus spectaculum". Dois barcos cenográficos de proporções épicas dominavam a paisagem. O primeiro, representando o Inferno, exibia um mastro de cinco metros e uma vela adornada com um chifre peludo; o segundo, o do Paraíso, era cercado por esferas que remetiam ao sistema planetário e ao conceito de "Primum Mobile" de Dante Alighieri.
A tecnologia não ficou atrás da tradição. Com sessenta caixas de som acústicas de última geração e um telão transparente em Full HD visível de toda a baía, a produção garantiu que os mais de cinco mil presentes — superando a capacidade inicial de três mil — não perdessem um único detalhe da movimentação dos atores, captada por câmeras inteligentes instaladas nos mastros das embarcações.
Entre o Sagrado e o Profano
A adaptação de Pardelha manteve a essência da moralidade vicentina, mas com um toque de ironia local que não poupou a elite política de Ilhéus. A entrada triunfal do Anjo, interpretado por Vânia Pardelha, contrastava com a energia caótica e hipnotizante do Diabo, vivido por um inspirado Zé Sarapó. O ritmo foi ditado pelo batuque afro-indígena do grupo Filhos do Mar, que conferiu ao espetáculo uma identidade genuinamente local.
Um dos momentos mais comentados foi a intervenção do personagem Arlequim, que quebrou a quarta parede para saudar a plateia e disparar críticas ácidas. Sob o olhar atento da prefeita Amélia Bartira Boga — cujo sobrenome tornou-se sinônimo de polêmica na cidade após escândalos de propina —, o espetáculo satirizou figuras como o Secretário da Fazenda, Valdomiro Valentino Lúcio, apelidado em cena de "argentário" e "predador".
O Mistério na Areia
Além dos atores, uma presença inusitada chamou a atenção dos mais observadores: um cão caramelo, de olhar fixo e quase humano, que parecia hipnotizado pela performance de Zé Sarapó. Entre o povo, sussurrava-se que o animal seria a personificação de "o bicho" ou "Iurará-anhanga", observando o destino das almas de Ilhéus.
O Veredito das Barcas
Ao som de "À barca, à barca, houlá!", personagens como o Fidalgo, o Onzeneiro e o Sapateiro foram desfilando suas iniquidades, descobrindo que, na morte, a pompa e o "toma lá, dá cá" da política não têm valor. Apenas os Cavaleiros, que lutaram por algo maior, encontraram lugar na nau do Paraíso.
O espetáculo encerrou-se deixando no ar uma pergunta que ecoa além das arquibancadas: em uma cidade de 500 anos marcada por tantas contradições, quantos "justos" seriam necessários para impedir que o mar da história engula o município? Para o Teatro Popular de Ilhéus, a resposta está na arte, na resistência e na memória.
Ficha Técnica:
Texto Original: Gil Vicente
Adaptação e Direção: Avelino Vital Pardelha
Elenco Principal: Zé Sarapó (Diabo), Vânia Pardelha (Anjo)
Trilha Sonora: Grupo Filhos do Mar e Maestro Antonino Mero

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