Pawlo Cidade/Foto: Ane Caroline
Por uma nova definição de gestão: quando o administrador dá lugar ao curador e ao ativista nas políticas públicas.
Da redação - Cultura
Não é de hoje que o setor cultural brasileiro e latino-americano debate a eficácia de suas políticas. No entanto, o diagnóstico de especialistas como o professor Victor Vich e o gestor Pawlo Cidade aponta para uma estagnação perigosa: a persistência de governos que enxergam a cultura apenas como um calendário de eventos, ignorando sua capacidade de moldar identidades e desestruturar preconceitos arraigados.
"Desculturalizar" para transformar
O conceito central que guia essa nova visão é a "desculturalização da cultura", proposto por Victor Vich em seu ensaio acadêmico. Para o professor da Pontifícia Universidade Católica do Peru, a modernidade cometeu o erro de isolar a cultura em uma esfera autônoma, separada da política e da economia. "Desculturalizar", nesse contexto, significa retirar a cultura de sua "redoma de cristal" e posicioná-la como um agente chave na mudança social.
Vich argumenta que a cultura não deve ser medida apenas pelas imagens que representa, mas pelo que faz: ela produz sujeitos e reproduz relações sociais. Por isso, as políticas culturais deveriam focar na desconstrução de "imaginários hegemônicos" — aqueles sentidos comuns que sustentam o racismo, o machismo e a desigualdade.
O Gestor como Curador
Pawlo Cidade, ao analisar o impacto dessas ideias na gestão prática, reforça que o papel do gestor cultural precisa ser urgentemente revisto. Em suas colocações, Cidade afirma que o gestor não pode ser meramente um burocrata ou um administrador de orçamentos. Ele deve ser um "agente cultural, um curador e um ativista".
"De que adianta continuarmos aplicando a Lei Maria da Penha se não combatemos o habitus social que promove a violência contra a mulher?", questiona Cidade. A resposta, segundo ele, reside na cultura. Ele utiliza o exemplo de Medellín para ilustrar como a mudança do quadro social depende de uma alteração na "não-cultura da violência", algo que só se alcança com processos contínuos, e não com eventos isolados.
A Transversalidade do Poder
Um ponto de convergência crucial entre Vich e Cidade é a transversalidade. Para ambos, uma política cultural só é relevante se ela dialogar com a economia, a segurança pública e os direitos humanos. No dia em que prefeitos e secretários compreenderem que problemas sociais têm mais relação com a cultura do que com o código penal, haverá uma mudança real.
O trabalho do gestor-curador seria, portanto, mapear as dores locais e utilizar a produção simbólica — cinema, teatro, literatura — para intervir nessas problemáticas. Se há violência em uma comunidade, a curadoria cultural deve priorizar obras que desestabilizem esse padrão.
Conclusão
Como bem sintetiza Victor Vich em sua frase de encerramento, o desafio atual das políticas culturais reside em um recuo estratégico necessário: "simbolizar o político e democratizar o simbólico". Enquanto a gestão cultural for vista apenas como entretenimento ou fomento à circulação de objetos, continuaremos, como dizia o poeta César Vallejo, "subindo para baixo". A verdadeira revolução cultural exige que se tire algo das populações: o peso de preconceitos seculares, substituindo-os por novos ideais de comunidade e justiça social.

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